quarta-feira, junho 12, 2024
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Reflexões sobre o dia 20 de novembro

Por: *Luciano Ventura de Souza Júnior

Chegamos ao mês de novembro que é marcado pelas reflexões do dia 20, data em que se comemora o dia da consciência negra. Durante este período, são feitos debates, rodas de conversa, palestras, a fim de informar as pessoas sobre a importância deste dia para a população negra que luta diariamente pela busca de reconhecimento e direitos que por muito tempo foram negados. Este dia, tem como marco principal, o triste assassinato de Zumbi dos Palmares, grande líder, símbolo de luta e resistência que possibilitou a liberdade de negros escravizados, além de outros vários feitos significativos para esta população.

           Zumbi fincou pé em Palmares e aceitou a guerra de posição para defender a possibilidade de um Brasil livre, liderado pelos africanos. Este foi o verdadeiro sonho de Zumbi, que valia o sacrifício e valeu a experiência como legado histórico para as lutas contemporâneas do povo brasileiro. O exemplo de Zumbi é vivo, hoje, não pelo aspecto guerreiro, mas pelo aspecto político. Afinal sabemos todos que a guerra é uma dimensão terminal da política. Os milhares de quilombos que se organizaram nos duzentos anos seguintes, resistiram e enfraqueceram a escravidão, mas nenhum deles conseguiu formular um projeto de estado e de sociedade alternativos à monarquia escravista. ARAÚJO, U. C. (2006).

Portanto, como explica ARAUJO (2006)  Zumbi dos Palmares,  assume um lugar político na história de luta pela população negra, sendo reconhecido como herói que defendia incansavelmente seu povo para serem libertos da escravidão. Este grande guerreiro deixa seu legado para os dias atuais, e ainda permanece vivo na memória e nos diálogos criados a partir de suas conquistas para a população.

            Diante da contextualização apresentada surge o questionamento: Devemos falar sobre a consciência negra apenas no mês de novembro? A resposta é simples e direta, não! Se faz necessário abordarmos este tema diariamente, em nossas casas, na sala de aula,  na rua,  no trabalho, enfim, em todos os lugares.  A data foi fixada no calendário para que possamos lembrar de quem lutou pela liberdade dos povos negros e possibilitou, que discursões como essa pudessem estar acontecendo, mas a luta por direitos anda continua de forma árdua.

            Levar estes debates para discussões cotidianas tende a proporcionar aprendizado a quem está a ouvir, gerando reflexões sobre os seus comportamentos, porém, nem sempre  é isso que ocorre. Em “O Pequeno Manual Antirracista” de Djamila Ribeiro (2019)  a autora afirma que no Brasil, a maioria das pessoas admite que exista racismo no país, porém, quase ninguém se assume como racista e ainda à quem alegue que não pratique o racismo pelo fato de ter parentesco com pessoas negras, ou simplesmente por ter empregado negros em sua empresa, mas sinto informa-los que ter contato com pessoas negras não te exime de ser racista.

Quem não se lembra da modelo fotográfica que usou suas redes sociais para defender uma atitude racista ocorrida em um famoso reality show? Após isso, foi denunciada pelos seus seguidores por estar compactuando com comentários racistas, e como defesa a modelo diz:

 “Me denunciaram por racismo, logo eu que tenho uma cachorra pretinha e é o amor da minha vida. Eu, racista? Tenho amigos gays, negros são maravilhosos, pessoas incríveis, amo demais. E me denunciaram”.

Identifica-se  a partir desta fala, a existência de um o racismo declarado, comparando ainda o povo negro a um animal, o debate aqui,  é sim sobre a cor de pele, mas, de seres humanos que foram retirados do seu lugar de origem para viver em condições precárias, forçadas a trabalhar e que ainda hoje lutam em busca de direitos.

É preciso pesquisar, ler o que foi produzido sobre o tema por pessoas negras — e é bastante coisa. No caso de quem tem acesso a bibliotecas e universidades, a responsabilidade é redobrada, e não deve ser delegada. Eu brinco que, muitas vezes, pessoas brancas nos colocam no lugar de “Wikipreta”, como se nós precisássemos ensinar e dar todas as respostas sobre a questão do racismo no Brasil. Essa responsabilidade é também das pessoas brancas — e deve ser contínua. (RIBEIRO, Djamila.2017.pág 20)

Mas para além de levarmos esses diálogos cotidianamente, é necessário que as pessoas busquem pela  informação, estamos em uma era tecnológica que veio para somar, as informações nos chegam com mais facilidade, diferente dos tempos de nossos avós, que tinham dificuldade de acesso à informações.  Como traz Djamila na citação acima, “leia o que for produzido por pessoas negras”. É importante, existe um acervo muito grande de livros, artigos escritos por estas pessoas a partir de suas vivências e pesquisas na área.

Por fim, precisamos debater sim, sobre o dia da consciência negra, mas não deixar estes diálogos adormecidos apenas para o mês de novembro, somente por ser uma data que está marcada no calendário ou ser obrigação no currículo escolar, se faz necessário entender a importância deste dia e do tema, é uma luta que permanece a mais de 300 anos pela busca de oportunidades, respeito e políticas públicas.

Autor: Luciano Ventura de Souza Júnior é estudante do Curso de Licenciatura em Artes Visuais pela Universidade Federal do Oeste da Bahia e Criador de conteúdo digital.  As opiniões expressadas neste artigo, são de inteira responsabilidade do autor. Não necessariamente, refletem a posição institucional deste veículo.

As opiniões expressadas neste artigo, são de inteira responsabilidade do autor. Não necessariamente, refletem a posição institucional deste veículo.

 

 

 

REFERÊNCIAS:
ARAÚJO, U. C. Valeu Zumbi. Palmares Fundação Cultural, 2006.

Disponível em: https://www.palmares.gov.br/?page_id=7730#:~:text=Zumbi%20fincou%20p%C3%A9%20em%20Palmares,lutas%20contempor%C3%A2neas%20do%20povo%20brasileiroAcesso em: 17/11/2021

RIBEIRO, Djamila. Pequeno Manual Antirracista..  1 a ed. — São Paulo : Companhia das Letras, 2019.

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