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Por amor e gratidão a Bom Jesus da Lapa

A cidade do morro dos ventos da fé completa 98 anos nesta terça-feira, 31 de agosto. A pedra de maior valor em todo o Nordeste está em Bom Jesus da Lapa. Não é à toa que o Santuário do Bom Jesus foi eleito a 1ª das 7 Maravilhas do Brasil, no dia 7 de janeiro de 2009, por meio de uma votação popular realizada pelo portal www.7maravilhasbrasil.com.br.

Cheguei nesta cidade em fevereiro de 2006 sem pensar quantos anos ficaria aqui. Minha sorte me permitiu estar até hoje, de forma que em pouco tempo, fui agraciado com o Título de Cidadão Lapense, no dia 10 de dezembro de 2010, sob as bênçãos do Bom Jesus no interior da Gruta de Nossa Senhora da Soledade, conferido pela Câmara Municipal de Vereadores.

Confesso que foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida, devido ao fato de após ter um filho nesta terra, filho nato deste tesouro de fé e peregrinação, também passei a ser filho adotivo. Depois disso, ninguém mais por equívocos políticos, teve a coragem de sugerir que eu fosse deportado, como aconteceu logo após minha chegada, devido ter expressão jornalística inédita nesta terra.

Na ocasião atual, quando a cidade completa 98 anos de emancipação política, nada mais justo do que o agradecimento pela acolhida e reconhecimento de um trabalho jornalístico que nem sempre agrada a todos, porém, está registrado em textos e fotos durante os últimos 16 anos, quer seja nas edições impressas, quer nas digitais.

Não obstante, ser forasteiro e ter pouco conhecimento da história e da cultura da cidade, como aprendiz de escritor e poeta, antes mesmo de popularizar o Visto, escrevi poemas e roteiros para documentários sobre a cidade. A primeira impressão que tive da capital baiana da fé rendeu um poema que ilustrou um documentário, cujo título é Breve Retrato da Lapa.

Aos poucos fui me familiarizando com os personagens principais desta cidade, que é considerada a Meca do Sertão. Um lugar certamente encantador para homens que desfilaram pelos caminhos da história, bem antes de Francisco de Mendonça Mar, em busca de aventuras e conhecimento.

Bandeirantes, gente como Antônio Guedes, Belchior Dias Moreyra, Dom Pedro II, Sir Richard Francis Burton, Noel Nutels, os tantos e tantos desbravadores dos sertões. Todos conseguiram levar na memória e até deixar registrado algum aspecto deste que é o morro dos ventos da fé, colado ao Rio São Francisco, ao qual, rodeando-o, surgiu a cidade.

É no Beco dos Artistas, que dá acesso à Praça Marechal Deodoro, quando algumas pessoas que conhecem bem a história da Lapa, reúnem-se para conversas e uma cervejinha no Bar Delícias da Rose, que passo a conhecer melhor fatos pitorescos da cidade. A pouco e pouco são reveladas para mim situações pitorescos, histórias de pessoas que já morreram e foram dignas de memória, por vários motivos.

Porém, os casos mais interessantes são aqueles que remetem sempre ao humor sertanejo, devido acontecimentos engraçadas. Tais fatos são contados por Orlando da Farmácia (Orlando Gomes dos Santos) e outros cidadãos que ali costumam passar algumas horas em convivência sadia de cidade interiorana.

É naquele local que vejo passando pela memória das ruas, uma procissão de figuras ilustres, as quais deixaram saudade e “causos” dignos de lembrança refinada. No mesmo local, explicam-se com detalhes como eram as ruas, algumas décadas atrás, assim como o comportamento das personalidades políticas. Os loucos também transitam naquele local – os de hoje e os de outrora – para satisfação dos cronistas que se utilizam da oralidade e revivem grandes momentos da história da vida pública e privada lapense.

A enchente de 1979, os crimes memoráveis, os imortais do futebol: Wilson Caicai, Orlando Fraga, Geromão, Naldinho, Paulo Índio e tantos outros me chegam com riqueza de detalhes, por parte de quem ama a Lapa, a maioria que desembarcou aqui há anos e viu que a cidade era formada por apenas algumas ruas. E tudo foi se arraigando até chegar à condição de cidade em franco crescimento.

Fatos tais quais, a construção da torre do Santuário, as saga do Monsenhor Turíbio Vila Nova Segura, da construção da chamada “ponte para o futuro”, bem como as transformações sociais que sepultaram de vez um coronelismo recente, são temas que me permeiam a memória e me incitam a um dia, talvez, escrever um livro, do qual já tenho esboço e enredo.

Ando por aí, paro nos bares onde reconheço tantos e tantos cidadãos comuns como eu, respeitosos e que reverenciam meu humilde papel na sociedade lapense, como um relator, ainda que imperfeito, porém, fazendo parte da crônica do cotidiano, por quase duas décadas, e me sinto realizado como cidadão adotado e que procura corresponder ao aconchego e carinho que me direcionam tantos amigos lapenses.

Peço perdão por excluir tantos nomes de pessoas que me apresentam a Lapa quase diariamente. Porém, as mais próximas como Orlando da Farmácia, Orlando Fraga, Evilácio Guimarães, Sérgio Mendonça e Adenilton Sena, o Tuta, são pessoas que me revelam a riqueza de uma Lapa que está no imaginário de milhões de romeiros bem como de filhos legítimos e adotados. Esses são cidadãos que prezo e sei que têm amor pela terra. Pessoas dignas de ser imitadas.

Hoje a Lapa está bastante transformada. Presenciei a praça principal passar por duas reformas. Hoje a antiga praça Marechal Deodoro da Fonseca já não existe. Chegou a modernidade com a Praça da Fé, com a Praça Monsenhor Turíbio Vila Nova, e existe toda uma requalificação urbana do centro da cidade.

Os novos tempos da Lapa são fruto do sonho de um cidadão admirado por uns e criticado por outros, mas, que não desiste de deixar sua marca como deixaram Francisco de Mendonça Mar e Monsenhor Turíbio. Doa a quem doer, Eures Ribeiro transformou Bom Jesus da Lapa que vai colher os frutos em um futuro bem próximo.

Só posso finalizar repetindo que meu sentimento é de alegria por estar no contexto histórico e social de uma cidade cheia de lendas e encantos, que a torna um cenário real maravilhoso. Só quem compreende o significado de tudo isso, é capaz de sentir o que sente um verdadeiro filho da terra. Parabéns ao povo lapense pelo aniversário de 98 anos dessa jovem e importante cidade do vale do São Francisco.

Breve retrato da Lapa

Ali passa o rio.
Aqui as pedras brotam do céu,
Colam-se em lascas,
Auto se entalham,
Engastam-se nas paredes do ar.

Incrível! Ainda permitem o romper de árvores:
Vê-se um bosque esparso no espaço.
Bem no meio, um cruzeiro.

Mais ao lardo,
Forma esguia em gesto de beatitude inerte.

Seria a sombra alongada
De Francisco de Mendonça Mar
Ao primeiro espanto

Sob a altivez do amontoado montanhoso
Em harmonia sacrossanta?
Vultos apostólicos,
Cordeiros rochosos irremovíveis em sua fé,

Mudando suas peças de pedra
Para a montanha fazer que se move,
Qual Maomé, qual monge himalaio?

Desdizendo o ditado bíblico,
Aqui pedra ficou sobre pedra,
Sobrou beleza,
Apinhamento de formas,

Simetria quase gótica
Aos golpes do escopo do tempo,
Aos sopros em falsete dos ventos.

Debaixo do sol com toda suposta verdade,
Santos se calcinaram,
Parece que oram hora após hora,
Do pôr-do-sol à aurora,

Para despetrificar o coração das gentes,
Em torno de uma Pietá pétrea.

Maria da Soledade
Fazendo acumular suas lágrimas
Num filete de rio ao largo.

Prece contínua, fluxo cristalizado no olho;
Lajedos verticalizados como adagas.
Ou seriam cadeias de mãos juntas
Debulhando cordilheira de rosários?

Coral litúrgico,
Conjunto de estátuas franciscanas
Num ensaio gregoriano, há tempos,
Quando o Grande Regente
Os elevou no limite do êxtase?

 

 

 

Fonte: visto24horas
Texto de autoria de Emanoel Virgino
Foto: Cláudio Bandeira

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